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Revaloração das hidrelétricas

Geradoras argumentam pela remuneração de serviços ancilares prestados pelas usinas com reservatórios, cada vez mais valiosos para um sistema mais variável

O Brasil possui um parque hidrelétrico que já representou mais de 90% e atualmente responde por cerca de 60% da sua matriz elétrica. A maior parte desse parque conta com reservatórios que valorizam as usinas na medida das dificuldades socioambientais para ampliação da capacidade de armazenamento e da crescente participação das fontes renováveis e intermitentes, eólica e solar.

Nesse contexto, as hídricas com reservatórios, por seus atributos de equilibrar, com energia limpa, as variações da demanda dos consumidores e ainda a oferta dessas renováveis intermitentes, tendem a se tornar preciosidades, ainda mais em um cenário de crescente aversão à fontes emissoras de gases do efeito estufa.

Será que essas qualidades estão sendo remuneradas adequadamente? As geradoras ouvidas nesta reportagem pela Brasil Energia entendem que não.

“Se você tiver a conexão bem desenhada e adequada, do ponto de vista da segurança energética a hidrelétrica com reservatório é uma das melhores, se não for a melhor solução, com exceção da bateria”, pondera o diretor de Gestão de Portfólio e Estudo Energético da AES Tietê, Claudy Marcondes. A empresa possui nove UHEs e três PCHs, somando 2,6 GW.

O executivo pondera que essa característica precisa ser valorada pelo arcabouço regulatório do setor. “Energia não é só o custo da ‘commodity’, precisa estar ligada também ao custo da segurança energética”, ressalta, lembrando que a regulação brasileira caminha para o reconhecimento econômico de atributos dessas usinas, como o atendimento à rampa (pico de consumo) com rapidez.

Por suas características, em um cenário de forte expansão das renováveis intermitente, as usinas com reservatórios, paralelamente ao papel que já exercem na sazonalização da energia ao longo do ano, terão cada vez mais a função de modular a carga ao longo das horas.

“É difícil definir como precificar esses atributos, mas as hídricas deveriam ser remuneradas por isso”, defendeu Marcondes.

A hidrelétrica mais moduladora do que de sazonalizadora, com a geração variando tanto quanto a carga, exigirá do operador do sistema mais parcimônia no uso da energia armazenada em forma de água, tendo o cuidado de não deplecionar excessivamente os reservatórios.

“Já é um clamor do setor elétrico o reconhecimento de que os atributos das hidrelétricas com reservatórios são altamente valiosos e que elas são avalizadoras do crescimento das outras fontes renováveis”, disse superintendente de Expansão e Operação de Geração e Transmissão da Cemig, Marcelo de Deus Melo. A Cemig é uma das maiores geradoras hidrelétricas do país, com 12 UHEs e 33 PCHs e CGHs, que somam 5,8 GW.

Sem as hídricas o Brasil teria como alternativa, para expandir as eólicas e solares, investir pesadamente em térmicas a gás e em gasodutos para suprir essas usinas instaladas próximas aos centros de carga.

Considerando as dificuldades ambientais para a construção de novos reservatórios e as pressões pela definição dos usos múltiplos das águas dos reservatórios, a regulação deve caminhar não só para a valoração adequada das águas do ponto de vista energético, como também para o estímulo ao uso híbrido e mais eficiente das fontes. Melo cita como exemplo o projeto de Cemig de construir parques fotovoltaicos sobre o espelho do reservatório da UHE Três Marias, com compartilhamento de conexões e instalações.

Distorções

Para o vice-presidente de Geração e Comercialização da CTG Brasil, Evandro Vasconcelos, “a forma mais prática de valoração das hidrelétricas é o pagamento por disponibilidade de capacidade”. O executivo disse que “o PLD horário, a partir do próximo ano, é bem-vindo porque dá um sinal de preço importante para as hidrelétricas”, mas ressaltou que para o Brasil alcançar um modelo de precificação realmente “baseado na dinâmica de mercado” é preciso primeiro corrigir distorções na regulação do setor, citando como exemplo aquelas que resultaram no imbróglio do GSF.

Vasconcelos citou também como distorção a forma “completamente anacrônica” como é calculada atualmente a garantia física das hidrelétricas. O modelo de rateio via MRE, criado no final dos anos 1990, segundo ele, nasceu em um momento em que os computadores não conseguiam calcular essas garantias individualmente.

“Já existe tanto metodologia quanto modelos capazes de calcular a garantia física de cada usina, faltando apenas vontade e coragem de fazer esse aprimoramento e eliminar as distorções existentes e que se perpetuam”, acrescentou.

O dirigente da CTG Brasil, empresa que conta, integralmente ou em parcerias, com 15 UHEs e duas PCHs, lembrou que o Brasil possui 200 GW, ou cerca de três meses de consumo, em reservatórios de hidrelétricas o que lhe dá grande capacidade de inserção de eólicas e solares na sua matriz. “Se for criada uma taxa global de carbono sobre cada produto ou serviço com base nas emissões de CO2 na sua cadeia de produção o Brasil será extremamente competitivo, com uma matriz energética muito mais limpa e mais barata”, disse.

Serviços ancilares

O gerente de Engenharia e O&M da Cesp, Luis Alexandre Paschoalotto, entende que não seria adequado definir um valor específico para a geração hidrelétrica, até pela subjetividade dos parâmetros que seriam necessários para se fazer a distinção entre as diferentes fontes.

“O que se tem, de fato, é que a fonte de geração hidrelétrica, além da geração de energia em si, presta outros serviços ao SIN e que atualmente não são especificamente remunerados”, disse, destacando os chamados serviços ancilares. Privatizada em dezembro de 2018, a Cesp opera três UHEs, sendo a maior delas Porto Primavera (1.540 MW), no rio Paraná.

Na avaliação do diretor de Estratégia e Regulação da Engie Brasil, Marcos Keller, a adoção do preço horário a partir de janeiro do próximo ano é fundamental para valorar os serviços da hidrelétrica, definindo um preço de energia que reflita precisamente o real custo de produção e entrega de energia ao consumidor final.

Mas essa seria apenas uma etapa. “É necessário aprimorar tanto os modelos computacionais quanto a forma de elaborar as premissas utilizadas hoje nesses modelos, além de avançar na investigação de uma formação de preço de energia a partir da oferta dos agentes”, diz Keller.

O diretor da Engie, concessionária, sozinha ou em parcerias, de 12 UHEs (6,1 GW), defendeu a revisão do atual modelo de valoração dos serviços ancilares, lembrando que alguns deles nem mesmo são remunerados e outros são remunerados com foco na recuperação de custos. Essa abordagem, na sua avaliação, “desestimula uma mobilização adequada de recursos”.

Fonte : Energia Hoje

Escrito por : Chico Santos

Link da Notícia : https://editorabrasilenergia.com.br/revaloracao-das-hidreletricas/

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