Hidrelétricas: energia e alimentos para a Paz.

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Hidrelétricas: energia e alimentos para a Paz.

Por Ivo Pugnaloni*

Petróleo a 150 dólares o barril. Ureia a 2000 dólares a tonelada, números que após três anos de pandemia, guerras e sanções já estão compondo nosso “novo normal”.

Em decorrência da proibição do petróleo russo, a Petrobras aumentou os preços da gasolina, diesel e gás de cozinha em 18,8%, 24,9% e 16,1%, com impactos fortes na energia elétrica, em todas as cadeias de produção inclusive de alimento básicos.

No setor elétrico, empregamos alternativas para escapar do apagão. A primeira foi usar cada vez mais óleo diesel, gás natural e óleo importados como combustíveis para a geração termelétrica, que é uma solução inevitável em países como o Brasil, onde falta construir novas hidrelétricas. Mesmo que as térmicas gerem energia oito vezes mais cara e 20 vezes mais poluente, elas tornaram-se a única forma de evitar o apagão quando o sol e o vento preferem estar em outros pontos da Terra, como durante a noite e a madrugada.

A segunda alternativa foi rezar para que um milagre fizesse as grandes chuvas anuais no Sudeste não saírem e não caírem do céu fora dos reservatórios das hidrelétricas existentes, quando ultrapassada a cota de segurança de seus vertedores. Algo impossível, pelo menos segundo a lei da gravidade.

Uma terceira alternativa, tem sido “torcer” para que a produção industrial não crescesse no ritmo desejado, uma torcida que contradiz a aspiração pelo crescimento econômico, depois de três anos de pandemia.

Até agora, tudo estava indo bem, seguindo esse “novo normal” com as tarifas nas nuvens, os investimentos em geração renovável caindo, exceto em solar importada da China, gozando de isenções tributárias e de encargos do setor.

De repente, uma guerra atrapalha a guerra contra as hidrelétricas

Antes de tudo, sobre as guerras, fundamental dizer mais uma vez que todos abominamos as guerras, quaisquer que sejam seus propósitos ou causas. Mas apenas dizer “que somos contra a guerra” não tem o poder de fazer as coisas voltarem aos “bons tempos”, quando o petróleo chegou a cair até a 18 dólares por barril.

Por isso, preferimos recomendar que novamente voltemos a estimular a geração hidrelétrica, em todos os seus portes e tamanhos, desde que atendendo absolutamente a todas as preocupações da legislação socioambiental e ao uso múltiplo dos recursos hídricos.

Esse estímulo deve ocorrer, em primeiro lugar, porque as hidrelétricas usam equipamentos, serviços, projetos e água da chuva totalmente nacionais. Elas geram empregos aqui e não no outro lado do mundo. Além disso, é fácil prever que o petróleo suba muito de preço, mas a água do rio não vá subir de preço.

Em segundo lugar porque hidrelétricas, além de gerar energia, com o uso múltiplo dos recursos hídricos, tem outras finalidades importantes, vitais quando a perspectiva de escassez alimentar se avizinha. Apenas para citar algumas, vamos às principiais: a piscicultura (como em Itaipu), a irrigação por gotejamento de frutas de alto valor agregado (como a uva e o melão em Petrolina); o abastecimento de água de cidades (como em Limeira) e até o econômico transporte fluvial de cargas e passageiros.

Além disso, reservatórios de água doce tem alto valor de conservação ambiental ao impedir a erosão, o uso das margens dos rios para deposição de lixo, culturas ilegais, ocupação irregular, acúmulo de detritos, além de remover lixo e detritos da água, nas grades metálicas que são instaladas nas tomadas d’agua, que limpam os rios. Todos estes benefícios previstos na Lei 14.119/21 que define a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais que apenas as hidrelétricas prestam.

Se as hidros apresentam tantas vantagens, é preciso entender as razões, pelas quais foi reduzida a construção de novas hidrelétricas, grandes, médias, pequenas, mini e micro.

Se elas são a fonte de energia renovável e armazenável que sustenta 80% do nosso consumo e existe uma rígida legislação ambiental para disciplinar seu licenciamento, como elas podem estar sendo assim secundarizadas frente a fontes instáveis e intermitentes?

Se a resposta for apenas porque o licenciamento destas fontes “é mais rápido”, qual seria a razão dessa “pressa” em instalar algo que produz energia apenas 8 horas por dia e não 24 horas por dia, como os juros bancários também correm durante 24 horas por dia? Se a questão for apenas o “menor tempo de instalação” para que alguém poderia querer tanto assim ter antes, algo que produz menos energia por intervalo de tempo? 

Não existe nenhuma lei proibindo a construção de hidrelétricas, mas é possível associar a forte redução do ritmo de sua construção e licenciamento com o trabalho midiático e “corpo-a-corpo” das “ONGs” junto à sociedade, que terminou beneficiando em muito os proprietários de geradoras termoelétricas existentes. Afinal, se não existem hidrelétricas em quantidade suficiente para armazenar água da chuva, a energia só poderá ser obrigatoriamente reservada sob a forma tanques cheiros de petróleo e derivados, transportados por custosos fretes e seguros por caminhões, gasodutos e oleodutos.

É notável aliás, que os demonstrativos de resultados destas ONGs que atacam indiscriminadamente as hidrelétricas de qualquer tamanho, a maioria das quais é estrangeira, apresentem grandes doações de empresas produtoras de energia elétrica que no Brasil usam combustíveis fósseis e de produtoras de gás e petróleo. Uma coincidência que pode ter razões objetivas para existir, talvez.

Sem dúvida esse fato pode atestar a excelência da capacidade que as ONGs têm de convencer ao seu credo “anti-hidrelétricas” a muitos investidores, dezenas de parlamentares e mesmo, vários fabricantes de combustíveis de grande agressividade atmosférica, que de repente, foram convertidos às teses limpas e renováveis.

A Guerra Rússia/OTAN/Ucrânia

Tudo isso ia indo muito bem, se não explodisse uma guerra econômica e militar contra a Rússia, ou da Rússia contra a OTAN e Ucrânia, além das outras guerras hoje existentes no Iraque, na Síria, na Líbia, Yemen, Mali, Ruanda, República Centro Africana, Etiópia, Sudão, Sahara Ocidental e em vários outros países africanos, de pequena influência econômica.

Essa guerra nova, por envolver a Rússia, provoca grande apreensão, pois a alta do petróleo já implicou num choque de preços em todas as cadeias produtivas, pois além de excelente vodka e misseis hipersônicos, a terra gelada de Tchaikosvsky é o segundo produtor mundial de gás e petróleo, atrás apenas da Arábia Saudita.

Efeitos dos embargos, bloqueios e sanções sobre uma infinidade de produtos que dependem do preço do petróleo, são expectativas reais que já estão acontecendo. Eles contrastam com as grandes vantagens em construirmos novas hidrelétricas, de todos os tamanhos, das menores às UHEs, desde que contem com projetos bem elaborados e executados, cuidadosos estudos para seu licenciamento ambiental e viabilidade econômica.

E ainda, claro, contando já em seus primeiros estudos e projetos, com projetos agronômicos e de saneamento destinados a permitir o uso múltiplo e simultâneo da água doce para gerar energia, abastecer cidades, permitir o turismo e o lazer, produzir peixes, irrigar a produção de frutas de alto valor agregado através da irrigação por gotejamento, entre outras finalidades. Mas sempre respeitando os direitos dos ribeirinhos e povos originários, conforme estão  inscritos na constituição federal e na legislação.

Tudo isso usando gratuitamente a força do sol, que transforma volumes gigantescos de águas oceânicas e continentais em chuvas que caem sobre as partes mais altas de nosso vastíssimo território, espalhando-se sobre pequenas, médias e grandes propriedades, nas quais ao correr por rios, córregos e riachos, criam centenas de milhares de potenciais hidrelétricos aproveitáveis apenas por seus proprietários, segundo a lei.

Assim, ao invés apenas de usar painéis e inversores, “made in China”, que operam durante sete horas por dia e podem ser alvo de sanções, podemos usar nossa própria água, nosso próprio aço, nossas próprias turbinas e geradores, nossas próprias fábricas, nossos próprios estudos, projetos e tecnologia, gerando milhões de novos empregos.

Ainda existe potencial hidrelétrico no Brasil além das pequenas quedas?

Segundo o SIPOT, um sistema de informações da Eletrobrás, existem disponíveis mais de 135.000 MW de potenciais de novas hidrelétricas acima de 5 MW para serem construídas! São quase 10 novas Itaipus , espalhadas em todos os estados. Isso é uma vez e meia todas as hidrelétricas instaladas no Brasil desde 1875.

Apenas 40% desse potencial está situado na Amazonia.  Ainda temos, sem contar nesse total, milhares de potenciais hidráulicos menores do que 5 MW, encontrados na maioria das nossas propriedades rurais, desperdiçados totalmente, ao invés produzirem energia, peixes e frutas de alto valor agregado, apenas devido à falta de conhecimento dos proprietários sobre os incentivos legais  para essas mini hidrelétricas. Algo que o governo deveria esclarecer e estimular, a nosso ver.

Desconhecidas também são as vantagens das novas turbinas de baixa queda e alto rendimento, que aplicam o efeito Venturi disponibilizadas no Brasil pela VERDERG, que se somam aos conhecidos tipos de Vórtice da VORTEX, Bomba-Turbina da ANDRITZ, Turbinas de Fluxo da VOITH SIEMENS e dos tipos convencionais da HIDROWHEEL, da TABAPOWER, da SEMI e da HACKER.

Outro fato desconhecido dos proprietários rurais onde existem esses potenciais é a maior facilidade para conexão no sistema das distribuidoras de energia, que as tornou em tudo similares às placas solares, com a vantagem de não precisar estar nos telhados para produzir, mas sim na beira de rios, riachos e córregos. Além disso as hidros agora contam com compra garantida de 2000 MW até 2026, nos leilões da ANEEL.

Por tudo isso, é nossa opinião que pequenos e médios investidores e proprietários rurais podem agora com fazer o Brasil vencer o desafio de produzirmos alimentos e energia, nesse tempo conflituoso e de mudanças, pois tudo aquilo que depender de petróleo já está subindo de preço, principalmente a energia elétrica.

Energia hidrelétrica, por não depender de petróleo, é um fator de Paz e de cooperação entre os povos, sendo a Binacional Itaipu um formidável exemplo disso estabelecido entre Brasil e Paraguai. Afinal sabemos de mais da metade dos conflitos mundiais se dão por interesses comerciais no petróleo e na conquista não apenas de novas jazidas, mas de novos mercados.                                                                                                                                                                                          

O “Programa Cultivando Água Boa”, implantado em Itaipu, já é referência mundial em piscicultura e mais 70 atividades geradoras de renda e conservação ambiental. Vale à pena dispender cinco minutos pesquisando sobre esse programa para entender o potencial de produção de alimentos de alta qualidade que mesmo uma pequena hidrelétrica em sua propriedade, irá oferecer como complemento ao faturamento global da instalação.

Paz, água, energia e alimentos.

Que mal pode existir numa fonte de energia como essa, se a engenharia for a gestora do processo e as leis forem obedecidas?

(*Ivo Pugnaloni é engenheiro eletricista foi presidente da COPEL DISTRIBUIÇÃO, fundador da ABRAPCH e é há 22 anos presidente da ENERCONS)

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