Segurança hídrica e alimentar, navegabilidade dos rios e hidrogênio (realmente) verde.

Novas hidrelétricas do Piauí podem produzir muito mais do que energia renovável. Ivo Pugnaloni* www.enercons.com.br Nos anos de 2011, 2012 e 2013, uma forte seca no Nordeste castigou a economia e a vida da população de centenas de municípios do Piauí. Em 90% deles, faltou até água potável, obrigando o governo a decretar “emergência” em 204 cidades, depois da seca haver causado muito sofrimento e prejuízos a mais de dois milhões de pessoas. Em três anos, o gado, a criação e as lavouras foram totalmente comprometidas e os reservatórios chegaram quase a secar, como a Barragem de Bocaina, mesmo com seus 54 milhões de metros cúbicos. Grande número de estudos, dentro os quais os de Mead, Clayton, Schell e Haurwitz comprovaram a existência de relação direta entre o ciclo de 11 anos das manchas solares e a hidrologia na Terra, causando entre outros efeitos enchentes e as secas que se sucedem com intervalos quase regulares de 11 a 12 anos, também influenciadas é claro, por fatores locais. O mais impressionante, porém, nesse caso não são os fatos da natureza, que são previsíveis, mas o comportamento imprevisível e insensato das sociedades humanas frente a esses dois extremos de secas e enchentes, pois apesar de previsíveis, esses eventos são esquecidos de forma extremamente rápida, pois quase todos parecemos preferir arriscar a prevenir. O mandato do governador do estado do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite é um recente exemplo disso, ao não ter tomado nenhuma providência quanto à segurança hídrica dos territórios sob sua administração, apesar de alertado há anos por cientistas e técnicos de reconhecida experiência. Afinal, “para quê gastar dinheiro para evitar uma seca ou uma enchente que não está acontecendo agora?”, parece ser a regra mais seguida no Brasil. Tornou-se comum que eleitores e administradores esqueçamos que obras de engenharia levam mais de 10 anos para serem projetadas, licenciadas e construídas. Mas geralmente elas funcionam bem, resolvem grandes problemas e duram décadas. A CITER, a corda e o dilema do hidrogênio realmente verde O Fórum Econômico Mundial de Davos, apontou o Brasil na 12ª posição mundial no Índice de Transição Energética (ETI). Nas Américas, somos os primeiros colocados. E somos o terceiro entre os países do G20. Pesaram na escolha o compromisso do Brasil com a energia hidrelétrica, a energias solar, eólica e os biocombustíveis, que estimularam os investimentos em infraestrutura sustentável. Convidado para participar de um debate em Teresina, no Painel de Diálogo “Desafios Ambientais e Sustentabilidade” da Conferência Internacional de Tecnologias em Energias Renováveis promovida pelo Governo do Estado, o PNUD e o ICIMA, lembrei que o Piauí havia assumido recentemente não apenas o terceiro lugar capacidade instalada de energia solar, mas também da energia eólica no Brasil. Uma vez que o convite destacava apenas energia solar e eólica, e o hidrogênio a ser gerado por elas, meus botões tentaram me avisar: “Ivo, você foi convidado para debater sobre usinas hidrelétricas sustentáveis. Isso será como conversar sobre a fabricação de corda em casa de enforcado. Lembre-se que o Piauí só tem uma única usina hidrelétrica, a UHE Boa Esperança, que desde 1968, produz 97% das necessidades do estado”. Supus também que a proposta do Piauí fosse apenas gerar hidrogênio usando fontes renováveis para vender o gás como “comoditie” barata para a indústria siderúrgica e de fertilizantes na Europa, num mercado altamente disputado por vendedores, pois é reduzidíssimo. Desobedecendo aos conselhos que me davam meus botões, ao agradecer o convite ao governador Rafael Fonteles, na abertura do evento, fui surpreendido pelo seu abraço e pela sua risada franca ao contar-lhe a história da corda e do enforcado, frente à qual, exclamou: “Mas as hidrelétricas também têm um papel muito importante por serem fontes permanentes e armazenar água”. Meu ânimo melhorou ainda mais quando, na palestra magna que se seguiu, soube que a Investe Piauí, empresa de economia mista destinada a criar políticas públicas de desenvolvimento econômico regional, quer muito mais do que simplesmente fazer do estado um mero fornecedor do “hidrogênio verde”. Mas sim fomentar pesquisa científica de novos processos industriais de forma a ampliar o mercado consumidor desse gás, restrito hoje à produção de aço e fertilizante. Nos três dias da CITER, foram mais de 45 debates com especialistas e empresários das maiores economias do mundo, entre as quais a SPIC, empresa sino-australiana e uma das cinco maiores geradoras de energia renovável do mundo, que inaugurou a usina fotovoltaica de Marangatu com 738 MW e que é proprietária da usina hidrelétrica de São Simão com 1.710 MW, sucedendo à CEMIG na concessão que a empresa mineira perdeu em um Leilão. Vamos produzir hidrogênio “verde” com até 48% de termoelétricas fósseis na matriz? A Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA): define hidrogênio verde como aquele produzido a partir da eletrólise da água usando eletricidade exclusivamente de fontes renováveis. Mas não existe uma entidade que, por meio de um acordo internacional, tenha definido o que é hidrogênio verde de forma universalmente aceita. A União Europeia pretende incluir na regulamentação internacional do hidrogênio verde também a produção do gás a partir de energia termelétrica alimentada por metano, ou seja de uma fonte de energia não renovável. Embora o metano emita a metade de CO2 do que o carvão linhita (0,6 kg equivalente de CO2 /kWh), a energia elétrica por ele gerada não seria renovável, mesmo que exista na proposta da UE a previsão de sistemas para captura e armazenamento das emissões de carbono. Além disso esses sistemas certamente encarecerão o combustível. Já o Ministério de Minas e Energia do Brasil está propondo uma classificação similar à da IRENA, com ênfase na baixa emissão de carbono durante todo o ciclo de vida do hidrogênio. Mas admitindo o carbono, que seria um erro num país com tamanha quantidade de recursos hidráulicos. Se isso fosse decidido assim, o que esperamos, sem ter o carbono para “sujar” a fonte elétrica de energia utilizada na produção do hidrogênio, o preço do nosso hidrogênio seria mais elevado no mercado internacional quando o consumo crescesse. Assim,