Aneel retira de pauta regulação para sistemas de armazenamento de energia elétrica

Uma discussão na diretoria foi a chamada “dupla cobrança” das tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição de energia durante o carregamento e o descarregamento da bateria O diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) Fernando Mosna retirou de pauta o aguardado processo de aprimoramento da regulação para os sistemas de armazenamento de energia elétrica. Uma discussão na diretoria foi a chamada “dupla cobrança” das tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição de energia durante o carregamento e o descarregamento da bateria. Houve retirada de pauta em função da necessidade de uma melhor avaliação jurídica da Procuradoria da Aneel sobre o escopo das eventuais mudanças, incluindo a definição conceitual das chamadas usinas hidrelétricas reversíveis, que também têm a função de armazenamento. O diretor Fernando Monza apresentou voto para negar a proposta inicial da área técnica da reguladora, que havia defendido a cobrança no momento do consumo (ao carregar a bateria) e também durante a injeção (quando é descarregada energia na rede). Pelo voto dele, no momento do consumo, não haveria cobrança das Tarifas de Uso dos Sistemas de Transmissão (TUST) e Distribuição (TUSD). Essas são as chamadas tarifas pelo “uso do fio”. Em contrapartida, haveria cobrança da tarifa de geração (para descarregamento elétrico). O entendimento fechado pelo diretor foi que os sistemas de armazenamento não devem ser onerados com encargos típicos de consumo, sob pena de distorcer a lógica do setor e criar barreira “injustificável à transição energética”. Outra definição regulatória em tratativa diz respeito aos chamados Montante de Uso do Sistema de Transmissão (MUST) e Montante de Uso do Sistema de Distribuição (MUSD). No voto de Fernando Mosna, esses dois montantes, a serem contratados, poderão ser inferiores em até 30%, tendo como parâmetro o limite mínimo de contratação. Foi defendida a redução de até 30% do MUST/MUSD sem onerosidade, visando especificamente a implantação do sistema de armazenamento, uma única vez. A Lei de modernização do setor elétrico (nº 15.269/2025) previu a possibilidade de licitação de armazenamento para uso na rede elétrica. O texto legal menciona que, no caso de sistemas de armazenamento na forma de baterias, os custos da contratação serão rateados apenas entre os geradores de energia, conforme a regulamentação da Aneel. O inédito leilão para baterias está previsto para o segundo semestre deste ano. A área técnica da Aneel apontou que a lei incluiu projetos de armazenamento no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi), além de deixar margem para possíveis incentivos tributários, como redução de alíquotas de importação para baterias e componentes, conforme regulamentação A adoção de Sistemas de Armazenamento de Energia Elétrica (SAE) tem como benefício mais evidente a contribuição com o sistema elétrico em áreas com restrição de rede e ocorrência de corte de geração de energia elétrica – problema conhecido como “curtailment” e que afeta significativamente as fontes renováveis atualmente sem capacidade de armazenamento.
Kuwait sobrevive no deserto transformando água do mar em 90% do abastecimento do país por meio de 8 estações de dessalinização com capacidade de 3,11 milhões de m³ por dia, incluindo Az-Zour North, maior planta integrada que produz simultaneamente 2.700 MW de eletricidade e 545 milhões de litros de água

Kuwait foi pioneiro na dessalinização ao instalar a primeira planta moderna de água potável do mundo no início da década de 1950 e hoje depende de oito usinas ao longo do Golfo para suprir quase 90% da demanda nacional, em um país sem rios, com chuva média de 110 mm por ano e forte pressão sobre a segurança hídrica. O Kuwait é um dos exemplos mais extremos de escassez hídrica no planeta. Localizado em uma das áreas mais áridas do Oriente Médio, o país praticamente não conta com recursos naturais convencionais de água doce. Não há rios permanentes, não há córregos de água doce relevantes e a precipitação média anual gira em torno de apenas 110 milímetros. Em termos práticos, isso significa que a segurança hídrica do Kuwait nunca pôde depender da geografia natural, mas sim da engenharia, da energia e da capacidade do Estado de transformar água do mar em água Hoje, a disponibilidade de água per capita no Kuwait é estimada em apenas 5 metros cúbicos por ano, uma das menores do mundo. Ainda assim, o consumo per capita segue entre os mais altos do planeta, alcançando cerca de 500 litros por pessoa por dia, com crescimento médio anual de demanda em torno de 3,6%. O paradoxo kuwaitiano é justamente esse: um país com escassez hídrica extrema e, ao mesmo tempo, um dos padrões de consumo mais elevados da região. Quase 90% da demanda nacional de água é atendida por dessalinização, o que transforma essa infraestrutura em peça central da estabilidade econômica, sanitária e social do país. História da dessalinização no Kuwait começou no início da década de 1950 e colocou o país na vanguarda global A história moderna da água no Kuwait mudou no início da década de 1950. O país é amplamente reconhecido como o primeiro do mundo a instalar uma planta de dessalinização voltada à produção de água potável em escala moderna. As referências históricas variam entre 1951, 1952 e 1953 para a entrada em operação inicial em Shuwaikh, mas o consenso é que foi nesse intervalo que o Kuwait inaugurou a infraestrutura que abriria um novo capítulo na história da engenharia hídrica mundial. Quando a precipitação caiu fortemente em 1907, o transporte marítimo de água tornou-se ainda mais importante. Todos os dias, dezenas de grandes dhows cruzavam a região carregando água doce para abastecer uma sociedade instalada em pleno deserto. Em 1939, o Kuwait criou sua primeira empresa formal de transporte de água para tentar responder ao aumento da demanda. Pouco depois, o governo passou a comprar poços privados, centralizando o controle sobre o abastecimento. Economia A dessalinização, nesse contexto, não surgiu como luxo tecnológico, mas como resposta de emergência de um país que precisava literalmente fabricar sua própria sobrevivência. O Kuwait foi o primeiro país do mundo a transformar dessalinização em política de Estado para produzir água potável. Planta de Shuwaikh e tecnologia MSF colocaram o Kuwait na liderança da dessalinização moderna A usina pioneira de Shuwaikh acabou sendo substituída e ampliada no início da década de 1960 por um sistema baseado em Multi-Stage Flash Distillation, a famosa tecnologia MSF, que se tornaria a espinha dorsal da dessalinização no Golfo por décadas. A estação Al-Shuwaikh é frequentemente descrita como a primeira planta comercial MSF do mundo, marco técnico que colocou o Kuwait no centro do desenvolvimento dessa tecnologia. A lógica do sistema MSF era revolucionária para a época. A água do mar era aquecida e submetida a sucessivos estágios de evaporação e condensação, permitindo separar o sal e produzir água potável em escala crescente. O Kuwait rapidamente acumulou experiência operacional e passou a ampliar a capacidade de suas unidades. Em 1958, novas unidades já haviam sido adicionadas, e a tecnologia evoluiu com controles mais precisos de temperatura e estabilidade operacional. Naquele momento, o país não apenas buscava água; ele ajudava a construir o padrão industrial da dessalinização moderna. Flora e fauna Essa liderança teve importância regional e global. Enquanto outras nações ainda tratavam a dessalinização como tecnologia experimental ou de nicho, o Kuwait já a colocava no centro de sua estratégia de abastecimento. Ao longo das décadas de 1950 e 1960, o país consolidou-se como laboratório real de expansão da dessalinização em larga escala. Oito plantas de dessalinização no Kuwait hoje sustentam um sistema nacional integrado de água e energia Atualmente, o Kuwait opera oito plantas de dessalinização ao longo da costa, com capacidade total instalada na faixa de 3,11 milhões de metros cúbicos por dia. A capacidade efetiva de dessalinização aparece em diferentes levantamentos com recortes específicos, mas gira em torno de 1,65 milhão de metros cúbicos por dia, dos quais cerca de 1,47 milhão provêm de tecnologia MSF e aproximadamente 0,17 milhão de osmose reversa. O modelo kuwaitiano baseou-se historicamente na cogeração. Em vez de construir usinas de água totalmente isoladas, o país integrou plantas de dessalinização às estações de geração de energia. Assim, óleo ou gás são usados para produzir eletricidade, e o calor residual do processo é aproveitado para dessalinizar água do mar. Esse desenho reduziu custos relativos e permitiu escalar rapidamente a produção em um país que precisava, ao mesmo tempo, de energia elétrica e água potável. A água produzida segue para reservatórios subterrâneos, estações de bombeamento e torres elevadas antes de entrar nas redes de distribuição. O bombeamento e a distribuição são monitorados pelo Centro de Controle de Água em Shuwaikh, uma peça central da gestão operacional. Em 2019, o número de conexões com edifícios privados, comerciais e industriais já passava de 185 mil para água doce e mais de 76 mil para água salobra. Água Engarrafada Sistema de água no Kuwait usa duas redes separadas para água doce e água salobra Um dos elementos mais interessantes da infraestrutura hídrica kuwaitiana é a existência de duas redes distintas: uma para água doce e outra para água salobra. Cada uma possui reservatórios, estações de bombeamento e torres elevadas próprias. A água dessalinizada e de melhor qualidade é reservada para uso doméstico direto, enquanto a água salobra é usada em mistura, irrigação de áreas verdes, parques públicos, agricultura e
O mundo não tem energia suficiente para a IA, então a China tomou uma decisão extrema: construir data centers gigantescos no fundo do mar

Primeiro centro de dados subaquático comercial já opera a 35 metros de profundidade e promete reduzir até 60% do consumo de energia na corrida pela IA Enquanto grandes potências mundiais esgotam suas redes elétricas e buscam desesperadamente energia para acompanhar a corrida global pela inteligência artificial, a China decidiu que a resposta para essa crise não está na terra, mas nas profundezas do oceano. Em outubro de 2025, a China colocou em operação em Hainan, o primeiro centro de dados subaquático comercial do mundo, com servidores instalados a 35 metros de profundidade. A estrutura faz parte de uma estratégia maior para sustentar a grande demanda por computação e energia impulsionada pela IA. Ao usar o oceano como sistema de resfriamento natural, o país quer reduzir drasticamente o consumo elétrico dessas instalações. Por isso, o projeto é retratado como sustentável: ao substituir sistemas tradicionais de climatização pela água do mar, reduz a demanda por eletricidade em larga escala e, consequentemente, as emissões de carbono associadas à geração dessa energia, diminuindo o impacto ambiental da operação desses complexos digitais. Mas a pergunta que começa a surgir é outra: o oceano aguenta? Pressão energética da inteligência artificial acelera aposta chinesa em data centers subaquáticos A China tem um histórico de apostar em grandes projetos quando o assunto é tecnologia e infraestrutura. De trens de alta velocidade a grandes investimentos em energia, o país transformou inovação em estratégia de Estado. Não é coincidência, portanto, que essa nova estrutura tenha surgido agora. O avanço acelerado da inteligência artificial transformou os data centers em devoradores de energia. Isso porque, cada novo modelo, cada busca com resposta gerada por IA, exige um volume crescente de processamento e, consequentemente, de energia. Em várias partes do mundo, a expansão desses centros pressiona redes elétricas já sobrecarregadas. A China decidiu contornar esse problema de uma forma inovadora. Ao invés de disputar megawatts em terra firme, levou os servidores para o oceano. A lógica é simples: a água do mar funciona como um sistema de resfriamento natural, constante, abundante e gratuito, substituindo os complexos e intensivos sistemas de refrigeração usados em data centers terrestres. Com isso, segundo dados das autoridades locais, a economia de energia pode variar entre 40% e 60% em comparação com instalações tradicionais. A imagem ajuda a entender a dimensão do projeto. Cada módulo subaquático pesa nada mais nada menos que 1.300 toneladas e abriga 24 racks capazes de suportar até 500 servidores. Essas cápsulas metálicas são instaladas a 35 metros de profundidade no oceano, isoladas da pressão e da corrosão do ambiente marinho, conectadas por cabos submarinos que levam dados para a costa. Os testes começaram em 2023 e atenderam inicialmente demandas locais, como serviços digitais ligados ao porto de livre comércio da região. Agora, a estrutura avança para aplicações em nuvem e inteligência artificial, com planos ambiciosos de expansão. Dentro do atual plano, a China projeta a construção de até 100 cabines submersas, integradas a um parque industrial. Mas a aposta também traz algumas dúvidas em relação à sustentabilidade do projeto. Como o calor dissipado continuamente no oceano pode afetar ecossistemas marinhos, especialmente em períodos de ondas de calor? Quais são os riscos de manutenção em um ambiente de alta pressão e salinidade? A própria Microsoft chegou a testar centros de dados submersos em 2018, mas não levou a iniciativa adiante comercialmente. Ao transformar o fundo do mar com esses grandes data centers, a China não está apenas buscando eficiência energética, mas pode estar contornando limites físicos e ambientais para sustentar sua ambição na inteligência artificial. Se o avanço da inteligência artificial depende de energia abundante e capacidade massiva de processamento, a China descobriu que o oceano pode ser a chave nessa empreitada, mesmo com todos os riscos e implicações que isso carrega para o equilíbrio tecnológico e ambiental.