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Quando o Brasil debate a segurança energética, a conversa quase sempre gira em torno de usinas, linhas de transmissão, contratos de concessão e fontes alternativas. A floresta amazônica raramente aparece nessa lista. Em um novo estudo mostramos, com números concretos, por que isso precisa mudar urgentemente.
Desde 1985, o Brasil perdeu cerca de 845 mil quilômetros quadrados de floresta na Amazônia. Uma área de floresta equivalente ao estado de Mato Grosso desapareceu ao longo de quatro décadas. O debate sobre as consequências desse desmatamento costuma se concentrar nas emissões de carbono, na perda de biodiversidade e nos impactos nas comunidades locais. Mas há uma dimensão que ficou de fora da conta até agora: o que esse desmatamento custa às famílias e às empresas na conta de luz.
A resposta é: muito mais do que se imagina.
A floresta que gera energia
Para entender o problema, é preciso entender os “rios voadores” — um fenômeno atmosférico em que as árvores da Amazônia liberam vapor d’água por evapotranspiração, criando verdadeiras correntes de umidade que percorrem milhares de quilômetros pela atmosfera. Esses rios invisíveis alimentam as chuvas no Norte, no Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul do Brasil — exatamente as regiões onde estão as maiores usinas hidrelétricas do país, como Itaipu, Belo Monte e Tucuruí.
Quando a floresta desaparece, os rios voadores enfraquecem. Menos árvores significam menos umidade, menos chuva, menos água nos reservatórios. E menos água nos reservatórios significa que o Brasil precisa acionar mais termelétricas — as plantas movidas a gás, carvão e óleo diesel, que são mais caras e mais poluentes do que a energia hidrelétrica.
Esse mecanismo não é especulativo. Nessa pesquisa, quantificamos esse efeito, combinando dados de satélite sobre o desmatamento, modelos de trajetórias atmosféricas e registros de geração de energia ao longo de décadas. Os resultados são reveladores: se o Brasil tivesse evitado todo o desmatamento desde 1985, a geração hidrelétrica seria hoje 12,8 TWh maior por ano — o equivalente a 2% de toda a energia hidrelétrica produzida no país. Uma parcela aparentemente modesta, mas com efeitos enormes sobre os preços e o bem-estar da população.
Uma conta que a sociedade paga, mas não vê
O Brasil opera um sistema elétrico baseado em ordem de mérito: as fontes mais baratas — hidrelétricas, eólicas e solares — são despachadas primeiro. As termelétricas entram quando há escassez. Como elas são as mais caras, quando são acionadas, definem na margem o preço de toda a energia no sistema. Pequenas reduções na oferta hidrelétrica se traduzem em aumentos expressivos no preço da eletricidade para todos.
Ao calcular o que teria acontecido sem o desmatamento dos últimos quarenta anos, o estudo identificou perdas de bem-estar para a sociedade de até 1,1 bilhão de dólares por ano. Só os consumidores — famílias, comércio, indústria — teriam se prejudicado em até 920 milhões de dólares anuais com preços de energia mais altos. A isso se somam custos de carbono de até 175 milhões de dólares por ano, decorrentes das emissões adicionais das termelétricas que supriram a falta de água.
São perdas silenciosas, invisíveis na conta de luz, diluídas em centavos por kilowatt-hora. Mas somadas ao longo do tempo e da escala do sistema elétrico brasileiro, representam uma transferência permanente de riqueza dos consumidores para os geradores térmicos — e do presente para o futuro, na forma de emissões acumuladas.
Quem ganha e quem perde
É importante reconhecer que o desmatamento não prejudica todo o setor elétrico da mesma forma. Os consumidores sempre perdem: pagam mais pela eletricidade quando a água falta. As usinas hidrelétricas localizadas na bacia Amazônica perdem geração. Mas as termelétricas ganham: são despachadas mais e recebem preços mais altos. Algumas usinas hidrelétricas fora da Amazônia também se prejudicam com o desmatamento, enquanto algumas usinas na bacia do Paraná podem se beneficiar — todas as hidrelétricas afetadas produzem menos, mas, para algumas, o aumento no preço mais do que compensa a queda na quantidade.
Esse é o cerne de um problema político: os consumidores não sabem que parte da sua conta de luz resulta de uma externalidade do desmatamento. E o planejamento energético trata as condições hidrológicas como dados da natureza — não como variáveis influenciadas pelas decisões de uso da terra.
Várias florestas na Amazônia — e como isso importa para a política
A pesquisa também demonstra que a Amazônia não é um lugar homogêneo no que se refere à energia. Proteger apenas 3,3% da floresta — as áreas de maior valor energético, concentradas no Arco do Desmatamento — preservaria 20% de todo o benefício hidrelétrico da Amazônia. As florestas do Parque Indígena do Xingu, sozinhas, valem cerca de 5 bilhões de dólares em termos de geração hidrelétrica.
O que precisa mudar
A conclusão mais importante desta pesquisa não é um número. É uma reorientação de perspectiva: o desmatamento da Amazônia é um problema do setor elétrico — e a política energética brasileira ainda não incorporou esse fato.
O planejamento energético de longo prazo deveria incluir a dinâmica do uso da terra como variável estrutural. Os instrumentos de restauração florestal precisam incorporar explicitamente os benefícios energéticos, indo além da métrica de carbono. E as políticas de conservação podem ser geograficamente inteligentes, atentando-se para áreas de maior impacto para a segurança energética.
O Brasil tem uma oportunidade histórica de apresentar ao mundo uma visão integrada entre floresta e energia. Tratar a floresta como infraestrutura energética não é apenas uma metáfora bonita. É uma política pública ainda por ser construída.
*Rafael Araújo é professor de economia na FGV EESP.
Francisco Costa e Marcelo Sant’Anna são professores de economia na FGV EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças.
Vinícius Hector é doutorando em Economia na FGV EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças.
São os autores do estudo “Powerful Forests: The Welfare Implications of Deforestation for the Power Sector” (2026).