Energia do Brasil pode ajudar na descarbonização da região

O país tem hoje sobra que poderia ser exportada para os vizinhos da América do Sul, mas faltam linhas de transmissão. Um levantamento feito pela Comissão de Integração Energética Regional (Cier), a pedido do Valor, mostrou que o Brasil poderia ampliar a exportação de energia limpa e renovável para os países que fazem fronteira e ajudar na descarbonização da matriz elétrica da América do Sul. Segundo os dados dos relatórios da Cier, há uma potencial oferta de energia a custos competitivos gerada no Brasil que poderia substituir, pelo menos em parte, a eletricidade de termelétricas convencionais – mais caras e poluentes – gerada nos países vizinhos da ordem de 201 milhões de megawatt-hora (MWh) por ano em seu valor máximo. Em termos comparativos, o volume equivale a um terço do consumo anual do Brasil. Os cinco países com maior potencial de absorver a energia brasileira são Argentina, Chile, Peru, Colômbia e Venezuela. Por outro lado, países com um bom potencial de intercâmbio, como o Peru, sequer tem uma interconexão com o Brasil. Venezuela e Bolívia, por exemplo, têm grandes reservas de petróleo e gás a preços muito baratos e podem não se interessar. Já o Paraguai não tem um grande mercado consumidor, possui 50% da usina de Itaipu (140 GW) e já vende o excedente para o Brasil. O vice-presidente do Cier, Celso Torino, defende que as autoridades do sistema elétrico brasileiro reflitam sobre essa oportunidade, já que ampliar o intercâmbio ajudaria os vizinhos nas respectivas agendas de redução das emissões, traria divisas ao Brasil e reduziria os impactos nas tarifas dos consumidores brasileiros. O fato é que essa energia não poderia ser despachada imediatamente hoje. Limitações dos sistemas elétricos dos países, sistemas isolados, geração mínima obrigatória de termelétricas e necessidade de estabilidade do sistema elétrico de cada nação são alguns exemplos das barreiras. Outra dificuldade é que a atual legislação dos países não permite um contrato firme, ou seja, a interrupção de fornecimento pode acontecer a qualquer momento, o que desestimula empresas a investirem em infraestrutura sem a garantia de remuneração do capital investido. A consultoria PSR, porém, acredita que isso pode mudar com a criação de demanda firme em contratos de suprimento, que seria um mercado entre os países adicional aos intercâmbios ocasionais. Torino sugere a criação de novas conexões ou interligações mais robustas que permitam que haja maior fluxo de energia entre os países, considerando as sazonalidades como o inverno argentino, o verão brasileiro, as variações hidrológicas, as intermitências das eólicas e fotovoltaicas. Não é difícil visualizar, na visão dele, possibilidades reais de que essa energia flua ora no sentido Brasil-vizinhos, ora no sentido contrário. “Proposições como investimentos em linhas de transmissão nas fronteiras, que chamamos de ‘pontes elétricas’ e avanço numa regulação que viabilize um mercado comum de energia regional não são novas, mas acreditamos que a América do Sul está num momento oportuno para que haja passos largos para a efetiva integração energética”, avalia Torino. As principais geradoras já se manifestaram para que o Brasil mantenha o ano todo o intercâmbio energético regional, mas não foram atendidas. No dia 11 de junho, o país interrompeu a exportação para Argentina e Uruguai, fato que frustrou a expectativa de Eletrobras, Engie, Copel, Cemig, entre outras. Para o CEO da Engie Brasil Energia, Eduardo Sattamini, o país reúne condições únicas para assumir o papel de liderança na integração e transição energética da América Latina. Os reservatórios continuam cheios e as previsões de um inverno com boas precipitações nas bacias do Sul e do Sudeste nos colocam em condição favorável para a exportação comercial. “Diante do cenário de sobreoferta, trata-se de uma solução racional que abre oportunidades relevantes para o setor, sem acarretar riscos ao sistema elétrico, além de atender a necessidade de mercados vizinhos que enfrentam problemas de oferta de energia e preços mais altos”, disse o executivo. Os tomadores de decisão do setor parecem ignorar isso, já que hoje só as termelétrica podem exportar. O ministério de Minas e Energia (MME) também autorizou a Eletrobras a importar e exportar energia. A pasta disse que é prioridade do governo fortalecer as parcerias com os vizinhos, mas os agentes falam que falta aprimoramento regulatório para que todas as fontes tenham oportunidade. O ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Edvaldo Santana, avalia que é oportuno o setor elétrico corrigir algumas distorções. “Se há uma enorme sobra de energia, porque não tratar o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai como um mercado elétrico? Acaba a sobra. Só na Argentina há uma demanda reprimida que é maior que o consumo do Sul do Brasil”, frisa Santana. A Tradener é a única comercializadora que faz as transações com os agentes do Brasil e repassa energia para a Camesa e UTE, estatais da Argentina e Uruguai, respectivamente. Mesmo se beneficiando pela sobreoferta no Brasil, ela acredita que investir em infraestrutura para mandar mais energia não é a solução, já que os vizinhos não querem construir estações conversoras, pois custam caro e deixam os países dependentes de energia do Brasil. “É a mesma coisa do gás da Rússia, em que um único país fornece para quase todos os outros”, diz Walfrido Avila, CEO. “O Brasil consome cerca de 73 mil MW médios. Está sobrando cerca de 20 mil MW médios de energia garantida. Nossa capacidade de exportação é de 2 mil MW médios. Continuar a exportação não é a solução para o desperdício. O que podemos fazer é incentivar o consumo interno com uma tarifa melhor”, acrescenta.
Ninguém tem o direito de dar palpite ao Brasil sobre energia, diz Lula

Presidente afirma que o país é exemplo mundial em transição energética e promete mais investimentos em fontes renováveis. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta 2ª feira (19.jun.2023), em sua live semanal, que os demais países precisam se espelhar na transição energética brasileira. Segundo o chefe do Executivo, o Brasil está muito mais avançado na utilização de fontes renováveis em sua matriz energética do que o restante do planeta e espera se consolidar como uma referência global nas discussões sobre o tema. “Ninguém tem o direito de dar palpite ao Brasil sobre energia. Da nossa energia elétrica, 87% da nossa energia é renovável. O mundo tem 27%. Da nossa matriz energética como um todo envolvendo combustível, 50% da matriz energética brasileira é limpa e renovável. O restante do mundo só tem 15%. Lula também prometeu que os investimentos em fontes renováveis serão intensificado durante seu mandato. O presidente afirmou que planeja investir em geração de energia eólica, solar, de biomassa e especialmente em hidrogênio verde. Este último faz parte de um projeto que Lula deseja consolidar no país. Segundo o petista, o mundo necessita de um país capaz de exportar o produto globalmente e o Brasil tem totais condições de cumprir esse papel devido à sua capacidade natural e aos conhecimentos adquiridos com o avanço de sua matriz energética. “Então pelo amor de deus ao invés de criticar o Brasil se espelhe no Brasil, porque agora nós vamos fazer muito mais. Nós vamos investir muito em eólica, vamos investir em energia solar, vamos continuar investindo em biomassa, e agora vamos investir muito em hidrogênio verde”, afirmou.
Parque eólico do Texas afeta a temperatura da terra

Uma região do Texas que contém quatro dos maiores parques eólicos do mundo mostrou aumento na temperatura da superfície terrestre, ao longo de nove anos, que os pesquisadores associaram aos efeitos meteorológicos locais das turbinas. A temperatura da superfície terrestre em torno dos parques eólicos do centro-oeste do Texas aumentou à taxa de 0,72 graus Celsius por década, durante o período de estudo, em relação às regiões próximas sem parques eólicos; efeito provavelmente causado pela turbulência nas esteiras das turbinas agindo como ventiladores para puxar ar mais quente de altitudes mais altas à noite, disse o principal autor Liming Zhou, da Universidade de Albany, Universidade Estadual de Nova York. Os resultados foram publicados na edição de 29 de abril da Nature Climate Change. Zhou e seus colegas estudaram dados dos instrumentos MODIS (espectrorradiômetro de resolução moderada), de temperatura da superfície terrestre, nos satélites Aqua e Terra da NASA, variando de 2003 a 2011. A temperatura da superfície terrestre mede a temperatura da própria superfície da Terra, em oposição às leituras de temperatura do ar usadas em boletins meteorológicos diários. Em uma paisagem ampla, a temperatura da superfície terrestre depende muito do tipo de cobertura da terra e da natureza da superfície. Em locais específicos, a temperatura da superfície terrestre varia amplamente do dia para a noite, enquanto a temperatura do ar varia em uma faixa menor. O aquecimento observado pelo MODIS ocorreu principalmente à noite. Na região estudada do Texas, a temperatura da superfície terrestre após o pôr do sol normalmente esfria mais rápido que a temperatura do ar. Porém, à medida que as turbinas eólicas continuaram a girar, o movimento trouxe ar mais quente para a superfície e, assim, criou um efeito de aquecimento em comparação com as regiões sem parques eólicos. Os pesquisadores esperavam ver o inverso durante o dia – um leve efeito de resfriamento – mas os dados mostraram um pequeno aquecimento ou efeito insignificante durante o dia. A estimativa de aquecimento se aplica especificamente a essa região em particular, e abrange a época em que os parques eólicos estavam se expandindo rapidamente, disse Zhou. A estimativa não deve ser considerada diretamente aplicável para outras regiões e paisagens, nem deve ser extrapolada por um longo período de tempo, pois o aquecimento provavelmente se estabilizaria, em vez de continuar a aumentar, se nenhuma nova turbina eólica fosse adicionada. O aquecimento também é considerado um efeito local, não o que contribuiria para uma tendência global maior. “Este é um primeiro passo para explorar o potencial dos dados de satélite para quantificar os possíveis impactos de grandes parques eólicos no clima”, disse Chris Thorncroft, coautor do estudo e presidente do Departamento de Ciências Atmosféricas e Ambientais da Universidade de Albany (Nova York). “Agora estamos expandindo essa abordagem para outros parques eólicos e modelos de construção para entender os processos e mecanismos físicos que impulsionam as interações das turbinas eólicas e a camada limite atmosférica próxima à superfície”. A indústria eólica dos EUA instalou um total de 46.919 megawatts de capacidade até o final de 2011 – representando mais de 20 por cento da energia eólica instalada no mundo e cerca de 2,9 por cento de toda a energia elétrica dos EUA – e adicionou mais de 35 por cento de todas as novas capacidade de geração dos EUA, nos últimos quatro anos, de acordo com a American Wind Energy Association e o Departamento de Energia. Essa capacidade adicionada durante esse período perde apenas para o gás natural e mais do que nuclear e carvão combinados. “A energia eólica será parte da solução para os problemas de mudança climática, poluição do ar e segurança energética”, disse Somnath Baidya Roy, da Universidade de Illinois, Urbana-Champaign, coautor do estudo. “Entender os impactos dos parques eólicos é fundamental para o desenvolvimento de estratégias eficientes de adaptação e gestão para garantir a sustentabilidade a longo prazo da energia eólica.” Os outros autores desta pesquisa, que foi financiada pela University of Albany, State University of New York e National Science Foundation, incluem Yuhong Tian no IMSG no NOAA/NESDIS/STAR, Lance F. Bosart na University of Albany, State University de Nova York, e Yuanlong Hu da Terra-Gen Power LLC, San Diego, Califórnia. Fonte: Nasa