Dono da megaloja Havan não ergueu loja nenhuma com esse dinheiro, virou sócio de quatro usinas hidrelétricas de cerca de R$ 400 milhões no interior do Rio Grande do Sul que abastecem parte da energia das megalojas, e uma delas roda sobre três turbinas

O conjunto se chama Complexo Toropi Guassupi e fica entre Quevedos, Júlio de Castilhos e São Martinho da Serra, na região central gaúcha. A primeira usina entrou em operação em agosto de 2020 e a última recebeu licença em março de 2024. Luciano Hang é um dos acionistas, ao lado de investidores de Santa Catarina e São Paulo. Nenhum desses empreendimentos tem vitrine, estacionamento ou Estátua da Liberdade na frente. O dono da megaloja Havan, Luciano Hang, é sócio de quatro pequenas centrais hidrelétricas erguidas no interior do Rio Grande do Sul, em um conjunto batizado de Complexo Toropi Guassupi, distribuído entre os municípios de Quevedos, Júlio de Castilhos e São Martinho da Serra, na região central do estado. O investimento anunciado por ele em 2018 foi de cerca de R$ 400 milhões para as quatro usinas, conforme registrado por veículos gaúchos e catarinenses à época. A potência somada do complexo é de aproximadamente 60 megawatts, o equivalente a cerca de 1,5% da demanda média de energia do Rio Grande do Sul. Uma delas, a Salto do Guassupi, opera com três turbinas. Como o empresário chegou ao setor elétrico A entrada em geração de energia não começou no Rio Grande do Sul. Ainda em 2009, o grupo colocou em operação a primeira das cinco pequenas centrais que pretendia instalar no leito do rio Braço do Norte, no sul de Santa Catarina. A primeira foi a São Maurício, em Rio Fortuna, com capacidade de 2,5 megawatts. Ao lado dela avançava a construção da PCH Rio Fortuna, de 7,5 megawatts, e as duas somavam R$ 45 milhões em investimento. Havia outros três projetos aprovados, previstos para Santa Rosa de Lima, Braço do Norte e São Ludgero, com mais R$ 45 milhões e 10 megawatts de capacidade conjunta. À época, Hang justificou o movimento afirmando que investia em um setor fundamental para o desenvolvimento do país e de forma limpa, porque essas usinas representariam o mínimo de impacto ambiental. Os 50% de energia própria e o ano em que isso foi dito Existe um número que circula muito associado ao assunto e que precisa de contexto. Em julho de 2016, em entrevista ao jornal O Município, de Brusque, o empresário afirmou que as centrais hidrelétricas geravam 50% da energia da rede. Aquela declaração se referia a um cenário específico. Naquele momento, a Havan tinha três usinas instaladas: uma no Rio Grande do Sul e duas em Santa Catarina. As quatro do Complexo Toropi Guassupi ainda eram projeto. No mesmo depoimento, ele informou que a empresa gastava R$ 7,5 milhões por mês com energia e que a conta havia dobrado em um ano, já que doze meses antes o valor era de R$ 3 milhões. Como a energia chega às lojas O funcionamento não é o que a intuição sugere. Não existe um cabo saindo da usina e chegando na loja. Toda a energia gerada é injetada no Sistema Interligado Nacional, que reúne produção e transmissão em praticamente todo o país. O próprio empresário explicou a lógica: as usinas estão ligadas à rede, e todas as lojas, de todas as regiões, recebem energia desse sistema único, que é alimentado em parte pelas usinas do grupo. Na prática, a operação funciona como uma compensação contábil. Para economizar, a rede comercializa energia no mercado livre, em que grandes consumidores negociam diretamente com quem produz, e também no mercado cativo, atendido por distribuidoras locais. O terreno comprado dez anos antes O projeto gaúcho tem uma história longa de gestação. A ideia de construir o complexo no Rio Grande do Sul surgiu por volta de 2008, quando foi comprado um terreno na região entre Quevedos, Júlio de Castilhos e São Martinho da Serra. Uma década depois, em fevereiro de 2018, o empresário anunciou o pacote em coletiva após reunião no Palácio Piratini com o então governador José Ivo Sartori. O anúncio total foi de R$ 1,9 bilhão no estado: R$ 1,5 bilhão para até 50 megalojas e R$ 400 milhões para as quatro usinas. Até aquele momento, segundo ele, já haviam sido investidos R$ 100 milhões entre terreno e projetos, sem que a licença de instalação tivesse saído. A reclamação pública que abriu portas O caminho até aquela reunião passou por uma estratégia de exposição. Hang gravou um vídeo reclamando da burocracia para fazer negócios no Rio Grande do Sul, e as imagens se espalharam no meio empresarial. A repercussão levou o governador a chamá lo para conversar. Em outra declaração, feita em 2016, ele já havia estimado que a demora para conseguir licenciamento de uma usina hidrelétrica no Brasil chegava a dez anos, e classificou isso como o tempo que o empreendedor leva para obter liberação de uma energia de que o país precisa. As quatro usinas, uma a uma A primeira a receber licença de instalação foi a Salto do Guassupi, em 1º de março de 2018, no rio Guassupi, entre Júlio de Castilhos e São Martinho da Serra, na localidade de Rincão dos Albinos. A barragem tem 22 metros de altura e a área alagada é de 79,3 hectares. A segunda foi a Quebra Dentes, no rio Toropi, entre Quevedos e Júlio de Castilhos, com capacidade de 22,36 megawatts, barragem de 19,75 metros, área alagada de 54,6 hectares e um túnel de 2,7 quilômetros para levar água até a casa de força. Sozinha, ela tem capacidade para abastecer cerca de 54 mil residências. Completam o conjunto a Cachoeira Cinco Veados, de 16,2 megawatts, e a Rincão São Miguel, de 9,75 megawatts, entre Quevedos e São Martinho da Serra. O detalhe técnico que aparece no título vem de uma decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica. Em 9 de dezembro de 2020, o órgão liberou a operação em teste da usina, e a deliberação envolveu três turbinas totalizando 12,7 megawatts de potência instalada. A obra foi executada em um ano pela FBF Construtora, empresa de Xanxerê, em Santa Catarina. A licença de operação definitiva veio da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul em 23 de dezembro de